domingo, 24 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Uma história de amor natural

Minha alma está despida como esta árvore que desenhei. A borracha apagou impiedosamente suas folhas, tal como tu me apagaste a mim. Apenas uma folha verde permanece, a esperança ainda não acabou. A árvore pode voltar a ter folhas e eu poderei voltar a amar.
De uma simples semente enterrada na terra, brota uma trémula árvorezinha, que de um tronco fino passa a frondosa. Desse mesmo tronco, um ramo, dois, três, se vão esticando, cada vez mais finos, quase a querer tocar os céus. Mas com medo de os arranhar. As folhas verdes e fofas brotam desses ramos e com uma brisa brincam suavemente com os céus enamorados. Desta junção da árvore e dos céus, as flores chegam. A brisa, traída, arranca todas as pétalas das lindas flores. Mas essas, já grávidas o tempo, deixam os frutos ao cuidado da árvore, que cuida deles até morrerem e no chão cair. No próximo ano, tudo voltará a acontecer... 
Solange Coimbra

Explicando o porquê deste texto: Foi feito numa aula (peço desculpa, mas às vezes as aulas chegam a um pouco que uma pessoa desespera, e ao menos fiz algo construtivo sem incomodar ninguém :p), no meu caderno. Comecei por (tentar) desenhar uma árvore que ficou assim meia esquisita, não tenho jeito para as artes e no espaço que ficou inspirei-me e escrevi este pequeno texto. Eu tirei foto à folha, assim vêm melhor.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Uma conversa banal


Aproveitei cada momento que tive para te falar. Uma conversa banal e estritamente por questões profissionais, senão nunca mais ouviria a tua voz. Talvez a ouvisse, já que temos o mesmo local de trabalho, os mesmos colegas de equipa. Mas essas semelhanças não nos aproximam, só parecem afastar. Talvez por causa de um passado que partilhámos não há muito tempo e que dele só restaram nós dois e pó. Pó de uma lembrança já um pouco gasta, velha e suja, que parece ter acontecido num século passado mas que afinal é tão recente. As minhas feridas ainda custam em sarar, têm crostas e debaixo delas me encontro nua, sangrando, chorando por ti. Espero que sarem rapidamente, que um leve toque pode arrancar as crostas e deixar-me completamente vulnerável... a ti. Não sou imune, por isso tenho medo de ter uma nova ferida, voltar a amar-te. Mas o meu maior medo é ver a tua profecia realizar-se, morrer sozinha… Mas pior que morrer sozinha é morrer sem ti, continuar na dúvida de que tudo o que trabalhei por ti foi em vão ou não, se valeu a pena o esforço, a minha dedicação, 24 horas por dia, a ti. Mas continuarei sempre assim, de feridas abertas, a trabalhar contigo e a viver o que chamam de Vida. Talvez amanhã falaremos, ter uma pequena conversa amigável e rápida, mas só por razões profissionais.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Definição de Vida

Vou vos deixar aqui com o texto que me fez ganhar o primeiro lugar de um concurso literário na minha antiga escola, e sim, admito que era este o meu conceito de vida naquela altura. E agradeço a quem me apoiou sempre. 
Vida, o período de tempo que decorre desde o nascimento até à morte dos seres. Até o mais completo dicionário não aprendeu o significado desta palavra, a maior parte de nós passa pela vida sem dar por ela, num estado vegetativo, até a Ceifa nos colher. Eu nasci, vivo há cerca de uma década e meia e no entanto, tal como os vegetantes, nunca me senti realmente viva. Sinto-me a passar por este estado sem nunca ter experimentado o seu conteúdo. Porém, aprendi a ansiar por algo que me levasse para um sítio onde eu não fosse obrigada a existir. Um algures que nenhures fosse, onde planasse por todos os estados sem ter de lá permanecer.
Tanto ansiei que lá me encontro, vivendo entre a vida e a morte. Um passo para lá e dois para cá. Vou com a maré, sinto-me já fraca para batalhar contra as ondas que me engolem e consomem, eu, inteira, sopros de ar.
Vida, um comportamento. Todos os dias, todos os momentos requerem um sentimento diferente, uma abordagem diferente. É tão cansativo termos de nos sujeitar a viver. De certa forma, todos devemos nos comportar de maneira igual, mas ninguém acaba por cumprir. Eu, apenas existo, me arrastando, contra minha vontade, neste chão que todos os dias me vai tirando um pouco mais daquilo que não vivo.
Vida, princípio de existência, de força, de entusiasmo, de actividade. Já tentei ter força para lutar, para existir mais um dia com o entusiasmo que sempre aparentei ter. É tudo uma questão de camuflagem, querendo pôr todos bem, mas acabando por querer tratar de mim.
Penso para mim, que é apenas mais um dia, monitorizado, acaba por passar e chega um dia novo, igual ao outro, em que eu vivo ansiosa por desaparecer. Viver não se mede pelo sucesso nem a felicidade de uma pessoa, é tudo um espelho que esconde a fragilidade de um ser verdadeiro e honesto, alguém que quer viver mas não o sabe fazer.  
Vida, um conceito que não consigo aprender a viver. Não sei se serei a única a sentir-me assim. Num estado vegetativo, sem conseguir nem saber viver. É só um dia, uma fase? Já foi, sim. Agora é medo, receio de ter de viver mais um dia sem saber o que é o significado de o fazer. Já foram tantas páginas arrancadas do meu eterno confidente, manchado de tantas lágrimas que rolavam cheias de certeza de nada. Já não sei quem sou nem o que faço aqui, porque tenho de passar por este estado de vida, tão estranho e difícil de ultrapassar. Um teste complicado de perceber a finalidade. Quero gritar, dizer que estou aqui no mundo, que existo. 
Solange Coimbra

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Recaída

Joaninha, tenho saudades tuas. Hoje foi o meu primeiro dia de aulas... Comecei bem! (sarcasmo obviamente). Graças às palavras da S. tive uma recaída e acabei por altar à primeira aula com a D.T. Foram rios e rios de água a escorrer-me pela cara abaixo. Foi um fim de Verão bastante húmido por aqui. Senti-me muito mal mesmo... Mas fiz um esforço com a ajuda da M., e consegui lá ir. Mas por medo das boquinhas dos colegas, e se fossem como os outros? Fiquei com bastante receio, admito. 
A primeira pessoa que vi minha conhecida, tu até já podes imaginar. Fiquei ainda pior e com mais vontade de desistir. Desistir de ir lá de novo, desistir de viver. Mas eu fui! Senti na mesma uma grande raiva da S., que até a M. concordou comigo que ela é má e estúpida comigo. Deixa-me sempre sozinha quando preciso dela e consegue sempre fazer o brilho dos meus olhos se transformarem em lágrimas. Preferia nem a conhecer... tenho vontade de me esventrar, acabar com toda a luta silenciosa e invisível que ninguém compreende nem quer compreender... Era mais fácil sim, mas mesmo assim eu tentei e continuo a tentar lutar contra mim mesma.
E agora a turma, não tenho queixas. É barulhenta, mas até prefiro isso ao silencio. Tenho medo de me ouvir a mim mesma. Queria estar no fim de todas as filas, bem pertinho da porta. Assim podia sair se tivesse mais alguma recaída, podia sair e de certeza que poucos dariam pela minha falta. Talvez a Andreia, que sempre me apoiou... não sei.

domingo, 12 de setembro de 2010

Ano lectivo de 2010/2011

Daqui a mais ou menos 12 horas vai começar o novo ano lectivo e só espero que tudo corra bem... Para mim e para todos os estudantes de Portugal. Apliquem-se pessoal que eu também me tenho que aplicar a fundo nos estudos este ano :p
Mas arranjem sempre um tempinho para cá vir ler um pouco sim ? :3
Boa sorte a todos e bons estudos!
Solange Coimbra

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Um novo capítulo

Como é possível depois deste tempo todo o meu coração ainda bater forte quando sinto a tua presença. É como se… Não, não pode! O P. morreu, eu mesmo o vi morrer. Ali, naquele dia em que discutimos e virámos costas um ao outro. Foi tudo tão surreal e verdadeiro ao mesmo tempo. Sentia-me num sonho e lúcida ao mesmo tempo, queria chorar de tanto rir. Sentia-me bem, frustrada e confusa. Que bem e mal eu estava, tão sóbria e bêbeda ao mesmo tempo. Foi uma não despedida que já tínhamos concretizado há muito tempo. P. porquê? Porque me fazes ainda falta e porque ainda te sinto perto de mim meu cabrão? Foi como uma paragem na nossa estória, um novo capítulo que ia começar. Eu sem ti, durante dias, meses, anos até.
Pois eu não te quero ver nunca mais! Arde no inferno Belzebu, depois do que fizeste aqui eu irei ter eterna paz… Ao teu lado. 
Solange Coimbra

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Última oportunidade

Estou com calor e arrepios, olhos meio ensopados e vontade de rir, sem música e com vontade de dançar, sem sono e com vontade de dormir. Uma eterna confusão me assola, me prende ao chão imundo e frio. Por mais pessoas que haja à minha volta, sinto-me sempre, sempre sozinha. Sozinha porque sei que tudo o que sinto, o que penso e passo não é compreendido. Ver-te com tudo para seres feliz, teres a tua liberdade e não aproveitares, talvez, a única oportunidade que a Vida te dá de concretizares todos os teus sonhos confunde-me, enoja-me, entristecesse! Se não quizeres, dá-me a mim essa oportunidade. Defendê-la-ei de tudo e todos que ma tentarem tirar. Todos devemos ter uma chance dessas, não é? É o mais justo. Mas muitos não têm e os que têm não a vêem passar por eles. Deixa o orgulho e a arrogância masculina de lado, abre os olhos para o mundo, vê a sorte que tens! De te teres afastado da tua antiga e monótona vida que tanto te matava. Também me custava a mim ver-te sofrer dessa maneira, custou-me quando partiste, mas depressa descobri que não te podia censurar, faria exactamente o mesmo se pudesse. Mas desperdiçaste tudo o que tinhas. Tinhas tudo para teres agora, finalmente, uma vida normal e feliz, porque encontraste alguém que te desse o conforto que nunca tivemos. 
     É com dor que escrevo estas palavras. Custou-me a adormecer a noite passada por tua causa, por pensar que poderias voltar para casa e voltar a sofrer, como eu agora sofro e morro lentamente. Odeio-te por isso! Por muito que te queira ao pé de mim, não permito que mais ninguém que amo passe pelo que passei e continuo a passar.
   Abre os olhos meu irmão! Tens uma chance, nunca a deixes passar ao lado. Haverá sempre alguém que a utilize, melhor ou pior que tu. 
Solange Coimbra

O que não me mata faz-me viver

Tal como tu, eu aprendi a seguir em frente e a lutar pelo que realmente interessa. Não é ser fútil, amor diz o que quizeres… Aprendi a viver com todo o mal neste mundo e a passar por cima de toda a merda que abaixo de mim se encontra. Sofrer por coisas sem interesse, para mim não têm significado, quando isso me acontece só quero que tudo acabe.
   Mais uma vez tudo acabou. Tudo o que não houve, tudo o que não se disse e não se fez, não se tornou a repetir porque nunca houve experiência do mesmo. É confuso? Muita coisa na vida o é. Eu sou confusa? Escrevo com toda a raiva que comprimi este tempo todo. Não aguento mais! Por mais boa educação que me tenha dado a minha mamã, eu não sou de ferro! E já disse que não me importava com a tua opinião! Nem a minha por vezes conta, porque muitas vezes estou errada. Como aconteceu connosco :x
   Justo? Não, nem por isso. São coisas da vida, talvez. Aprendi que nem tudo é perfeito como eu queria, um mundo cor-de-rosa onde pudéssemos ser felizes juntos. Mas neste mundo de cores escuras nada disso foi possível. Se me arrependo de nada se ter passado? Agora vejo que foi o melhor. O nada que era, nada é agora. Não me importa, mais marés e sóis viram para me banhar e iluminar. Não preciso agora de mais complicações. Sou livre para escolher o meu sitio’zinho ao Sol e não és tu que me vai impedir de o obter.
   Mais uma vez sofri, talvez também o fiz a alguém, não tenho a certeza disso, mas tudo tem uma razão de ser. A razão, desta vez, foi fazer-me crescer um pouco mais e aprender com os meus erros e ingenuidade. Talvez sofra no futuro, mas pelo mesmo não o irei fazer. Este sentimento encontra-se enterrado e nada o vai de lá tirar. Talvez sofra no futuro tormentas causadas pelo mesmo sentimento, mas não por ti. Isso não se voltará a repetir
   Erramos, mas o maior erro é não saber aprender com o mesmo. Eu não errei assim tanto porque finalmente aprendi a lidar com a fera que é este sentimento. Amor, por algum tempo estás domado por mim. Fica assim meu amor, durante muito tempo, que eu não quero errar mais contigo. Obrigada sentimento por teres existido e teres-me feito aprender, mas não voltes a repetir o sofrimento que me deste. Não o conseguiria suportar.
Solange Coimbra

Amor-ódio

Há sempre alguma coisa para me distrair: tu
Não tenho tempo para estes joguinhos P., tenho que seguir em frente. Acabou tudo o que nunca tinha sido começado e aqui nos encontramos separadamente juntos. Eu sinto a tua falta, admito. Tenho a coragem de o dizer (ao contrário de ti) e sim, estou a sofrer pela tua ausência. Porque tinhas de ir para tão longe? O teu lugar é aqui, a chatear-me. Não me importa o que faças, desde que o faças comigo. Amo a nossa amizade estúpida, que me faz rir e chorar, querer-te abraçar e matar ao mesmo tempo. Esta relação amor-ódio que temos. que  nunca tive com ninguém e queria tanto preservá-la!
Fartei-me de esperar pela bonança, fiquei tão farta que fiz com que te fosses embora e aqui estou desamparada e sem o meu amigo, o meu irmão.  
Só espero que sejas feliz, onde quer que estejas e eu mudei, tal como querias. Fi-lo por ti, quero que fiques orgulhoso de mim em vez da desilusão que sentias antes de partires. 
"Tu mudaste", ainda ouço estas palavras, a arderem dentro do coração. Aquelas últimas palavras que trocámos antes de... Só gostava de puder voltar atrás e dizer-te que sim. Que me apoiaste sempre como eu te apoiei a ti quando precisaste, admitir que sim, eu amuava tal como tu fazias e sim, eu escondia os sentimentos tal como tu fazias. Aprendemos juntos a ser assim, mesmo feitio. 
Culpo-me por não te ter visto a desvanecer mesmo ali à minha frente. Culpo-me por tudo o que passámos juntos ter sido apenas uma (des)ilusão. Culpo-me por tudo o que nos aconteceu. 
E já nem sei se hei-de chorar se rir das minhas palavras, mas sei que escrevo isto com tudo o que sinto cá dentro. E só quero que me ouças, aí de cima que eu ainda estou viva e que não me podes tirar isso!
Para o P. com amor da tua amiga e irmã, O. Mais uma carta que deixo juntamente com as flores que apanhei, volto amanhã para trocá-las por umas novas. Que as mesmas te perfumem a campa.
Solange Coimbra

O barman

Tenho 19 anos, chamo-me Sophie e esta era a minha primeira ida à discoteca. Íamos até à mais frequentada da cidade, que bom. A muito custo as minhas duas grandes amigas Catherine e Anne, me convenceram a vestir um vestido, dez centímetros mais curto do que o normal. Tamanho compensado, sem exagero nenhum, pelas enormes botas vermelhas acima do joelho que esta noite me vestem e calçam de belezas. E não, não sou pudica. E nem pude ver a minha figura até estar a caminho da discoteca, não havia volta a dar.
   - Tenho os lábios tão vermelhos que faço inveja a um tomate – disse horrorizada quando me vi no espelho do carro e ao que parece disse isso com tanta piada que as minhas GRANDES amigas se mataram a rir! Boa, era o que me faltava… Para além de naquela noite me parecer com uma rameira barata também o meu humor o era!
   A um quarto para a meia-noite entrámos na discoteca, já bastante animada e cheia de gente. Confesso que estava um pouco assustada. Como posso eu estar neste estado e porque nunca tinha vindo antes a uma discoteca? Para começar não conhecia aquela discoteca e sabe-se lá para que sítio me estavam a levar estas minhas tolas amigas. E venho de uma família muito ligada ao trabalho e cultivo da terra e um pouco conservadora. Era uma pequena vila feliz e pacata em que todos eram primo daquele, tio do outro. Vim estudar numa das universidades mais populares do país. Desde pequena que dava sinais de vir a ser uma pessoa bem sucedida, e para isso tinha de ser bem formada. Estou aqui agora, para ser dentista. Sempre brinquei com alguns dos dentes dos animais que eram mortos na minha quinta e arrancava, ou tentava arrancar os dentes às minhas bonecas e nenucos. E sabem como é difícil arranjam uma boneca com dentes? É quase impossível! E não, não há nada de bizarro nisto. Há quem passe a sua infância a pensar em príncipes e a pentear e maquilhar as bonecas enquanto eu preferia meter-lhes um sorriso bonito.
   E agora perguntam-me se ainda sou virgem? Sou tímida e um pouco reservada, mas também sou humana, lógico que não meu caro leitor. Essa já eu perdi com os meus 17 aninhos. É que, sem ser convencida, eu também sou uma rapariga bonita. Mas discotecas, nunca vi por dentro. Espaços atabafados, suados e excessivamente alcoolizados não me fascinam. E a música então, nem quero falar. Mas aqui estou eu, que não se deve julgar nada pelo aspecto – por mais hediondo que seja.
   Entrámos as três juntas e connosco uma brisa de ar fresco (estava mesmo a ser precisa) e o resultado foi sermos descobertas por todos os olhares da noite. Tanto pior. Como se nada fosse fomos as três fingir dançar para a pista de dança. E dez minutos depois já elas estavam abraçadas a dois tipos com pinta de engatatão, ou seja vinte minutos de preliminares e cinco minutos do acto em si e acaba-se assim uma noite de «farra» … Se é que me entendem.
   Sozinha, vou até ao balcão. Talvez com uma, ou duas bebidas veja este lugarzinho um pouco melhor. Atendida pelo Sr. Sorriso Maroto, um metro e oitenta de mau caminho, vestindo uma t-shirt branca cavada que realçava a sua pele morena e aos seus bíceps e… Meu Deus, como desejei, naquele momento, que nada vestisse da cintura para baixo.
   - O que vais querer? És nova por estas andanças? – O tipo falou, tirando-me desta extasia e descobriu-me, cretino.
   - Sim, sou. E estou um pouco à toa aqui. Vim com umas amigas que ao acabar da noite estarão decerto a estudar anatomia com dois gajos burros e podres de bêbados. O que me aconselhas? – Disse enquanto olhava para as garrafas coloridas.  
   Ao que parece, o cretino bonzão também achou piada à forma como eu falava e deu-me então uma bebida a que disse ser da sua própria autoria! «A especialidade do Marcus». Olhei um pouco desconfiada para o copo e ele riu-se de novo da minha figura e disse-me que era seguro de beber aquela coisa. E a verdade se diga, gostei daquilo, quase tanto quanto acabar a noite na sua cama, a seu lado, e descobrir que ele é um bom estudante da anatomia do corpo humano.
Solange Coimbra

A morte da Natureza

A história que aqui conto, eu a vi acontecer há dois dias na beira da minha janela, onde as personagens nos são tão próximos mas tão distânciacriminados pelo tamanho. Lá fora, num ramo do meu velho Limoeiro habitava a mais linda e invulgar Flor, não era brancarrosada, mas sim de um azul cor do céu. Esta pequena Flor era portanto a mais cobiçada entre os insectos que ali esvoaçavam. Em sua meninice, a Flor a todos arrebatava o coração com um sorriso (se nós gente, podemos sorrir, porque não também uma linda flor?) mas seu coração nunca entregava a ninguém. Mas aqui entra em cena uma Vespa Macho, todo aperaltado em negras e amarelas vestes, pousando-se nas pétalas da Flor. A Vespa em seu enorme ferrão fazia delirar todas as colmeias pois coleccionava pólen das mais lindas flores do jardim e as mais perfumadas das laranjeiras. E agora queria o pólen da Florzinha do Limoeiro.
Deixando-se seduzir pela beleza riscada do insecto, este aproveitou para lhe sugar todo o seu néctar, roubando-lhe a sua essência, ferrando-lhe o coração. A Flor, de coração partido, deixou-se murchar com o tempo. A brisa por enfim, a desprendeu do seu galho e a fez terrena. No entretanto passam dois Velhos Escaravelhos Negros pela Flor morta de fresco, entreolhando-se e perguntando-se se as injustiças iam perdurar. E quem teria feito aquilo a tão nova Flor que nem chegara a deixar sementes a modo de criar raízes?
- Causa de sua morte? O amor. – Ouve-se uma voz bem lá no fundo do quintal. E, olhando de repentinamente, não sei se era já sujidade do tempo na minha janela, me pareceu ver uma outra peculiar Flor acordar para o mundo nesse Limoeiro.
Solange Coimbra

Sonos conturbados

Manhã. Acordo com o telefone a tocar. Relógio, onde estás? Mato quem quer que seja que me está a obrigar a levantar às dez horas da manhã de um Sábado, da minha caminha! Não há justiça neste mundo. Cambaleio até à cozinha e atendo o raio do telefone, numa voz sonolenta pergunto quem é. Boa, é a Tatiana. Alguém me mate por favor! Ligou a perguntar se tinha o número de um vizinho podre de bom que se mudou para a minha rua à pouco tempo, não tens hipóteses com ele. Esta gentinha que só sabe andar à caça devia ser toda posta num foguete e voar para a Lua, comam-se lá todos! O Homem, coitado, devia estar numa das espécies em vias de ser lixado e morto por estas carniceiras, que neste mundo há imensos casos assim! Não sou puritana, não me acuse nem ofenda que não estou a falar de si… Ou serviu-lhe a carapuça? Bem me parecia… Posso continuar a contar a minha triste e patética vida? Obrigada.
     Desligo e vou tomar um café, não para acordar mas para esquecer o sono. Sento-me na minha mesinha na varanda e saúdo o Sol que me vem dar uma carícia matinal, quase materna. Os meus pensamentos divagam-se e lembro-me que tive mais um pesadelo esta noite, quase nem fechei olho. Será que estou condenada a sonhar com isto para sempre? Estou eu traumatizada até? Sei que foi coisa do passado, mas temo que isso continue bem presente. Alguém me salve! (E era nesta parte que aparecia o meu príncipe encantado e afugentava os meus medos para longe e me beijava loucamente e vivíamos felizes para sempre! Mas isto não é um conto de fadas, enfim… Que tristeza.)
     Com que sonho eu? Devo dizer que não tenho sonhos nada criativos, o cérebro é preguiçoso demais. São apenas derivações de um sonho, sempre o mesmo, um pouco diferente de uns para os outros. As mesmas personagens, os mesmos espaços e o mesmo terror. Eu já sou lunática por Natureza por isso… Não me lembro de todos os sonhos, e ainda bem, mas sei que os tenho! Acordo como se tivesse sido perseguida por um bando de atletas olímpicos, assustada, cansada, e suada. É uma imagem bonita de se ver não é? É um espectáculo de vida! Vivo sozinha com o meu gato Luna (tem nome de gata porque a princípio pensei que fosse femea, mas estava enganada) e ando a estudar para bióloga. Daí morar bem perto de um bosque. Vive la Nature! Acho incompreensível e muito deprimente ainda temer estes monstros demoníacos do passado, vocês que estão a ler isto, cambada de elefantes! Tenho medo que voltem todos, fazerem tudo de novo, não ia aguentar. E é assim que meia dúzia de pessoas nos podem influenciar a vida para sempre, viva! À noite e nos meus sonhos serei sempre a pequena e tola e despistada e mais e mais e mais, que servia de saco de pancada para vós pessoas estúpidas. Serei sempre a indefesa personagem de outrora. Serei sempre tal e qual me vejo agora no espelho… O quê? Como é possível?
Solange Coimbra

De volta ao activo

“Vou ficar aqui e ver-me cair”. E porque não imitar a letra de uma música? De que vale levantar-me se posso voltar novamente ao chão? Sim, vale a pena! Vive a tua vida, porque não vou ser eu a vivê-la por ti. Tens medo? De quê? Eu também tenho os meus medos, também tenho medo dos obstáculos, mas só tens que liderá-los e superá-los à tua maneira. A vida é uma tourada e tu és o toireador, agora trata de te levantar, ir para a arena e agarrar nos cornos do touro e vencer! Tens medo de o enfrentar sozinho(a)? Há sempre alguém contigo, há sempre um cavalo ou um forcado para te apoiar e levar também uma cornada do touro, só por ti. Podes pensar que não mas há sempre algo ou alguém a olhar por ti. E sim, vai haver alturas em que te vais sentir só. Eu mesma, numa multidão acabo por me sentir sozinha, porque é que tinhas de ser diferente de mim?  Nessas alturas já sabes o que tens que fazer, ligas o teu computador e vens ao meu blog e deixas um comentário ou então contactas-me pelo e-mail: solangecoimbra@live.com.pt. Já sabes que também podes contar comigo e responder-te-ei da mais rápida e melhor forma possível.

* a canção onde me baseei para este texto foi a " Eminem - Love The Way You Lie ft. Rihanna" e o verso é: "Just gonna stand there and watch me burn".