- Tenho os lábios tão vermelhos que faço inveja a um tomate – disse horrorizada quando me vi no espelho do carro e ao que parece disse isso com tanta piada que as minhas GRANDES amigas se mataram a rir! Boa, era o que me faltava… Para além de naquela noite me parecer com uma rameira barata também o meu humor o era!
A um quarto para a meia-noite entrámos na discoteca, já bastante animada e cheia de gente. Confesso que estava um pouco assustada. Como posso eu estar neste estado e porque nunca tinha vindo antes a uma discoteca? Para começar não conhecia aquela discoteca e sabe-se lá para que sítio me estavam a levar estas minhas tolas amigas. E venho de uma família muito ligada ao trabalho e cultivo da terra e um pouco conservadora. Era uma pequena vila feliz e pacata em que todos eram primo daquele, tio do outro. Vim estudar numa das universidades mais populares do país. Desde pequena que dava sinais de vir a ser uma pessoa bem sucedida, e para isso tinha de ser bem formada. Estou aqui agora, para ser dentista. Sempre brinquei com alguns dos dentes dos animais que eram mortos na minha quinta e arrancava, ou tentava arrancar os dentes às minhas bonecas e nenucos. E sabem como é difícil arranjam uma boneca com dentes? É quase impossível! E não, não há nada de bizarro nisto. Há quem passe a sua infância a pensar em príncipes e a pentear e maquilhar as bonecas enquanto eu preferia meter-lhes um sorriso bonito.
E agora perguntam-me se ainda sou virgem? Sou tímida e um pouco reservada, mas também sou humana, lógico que não meu caro leitor. Essa já eu perdi com os meus 17 aninhos. É que, sem ser convencida, eu também sou uma rapariga bonita. Mas discotecas, nunca vi por dentro. Espaços atabafados, suados e excessivamente alcoolizados não me fascinam. E a música então, nem quero falar. Mas aqui estou eu, que não se deve julgar nada pelo aspecto – por mais hediondo que seja.
Entrámos as três juntas e connosco uma brisa de ar fresco (estava mesmo a ser precisa) e o resultado foi sermos descobertas por todos os olhares da noite. Tanto pior. Como se nada fosse fomos as três fingir dançar para a pista de dança. E dez minutos depois já elas estavam abraçadas a dois tipos com pinta de engatatão, ou seja vinte minutos de preliminares e cinco minutos do acto em si e acaba-se assim uma noite de «farra» … Se é que me entendem.
Sozinha, vou até ao balcão. Talvez com uma, ou duas bebidas veja este lugarzinho um pouco melhor. Atendida pelo Sr. Sorriso Maroto, um metro e oitenta de mau caminho, vestindo uma t-shirt branca cavada que realçava a sua pele morena e aos seus bíceps e… Meu Deus, como desejei, naquele momento, que nada vestisse da cintura para baixo.
- O que vais querer? És nova por estas andanças? – O tipo falou, tirando-me desta extasia e descobriu-me, cretino.
- Sim, sou. E estou um pouco à toa aqui. Vim com umas amigas que ao acabar da noite estarão decerto a estudar anatomia com dois gajos burros e podres de bêbados. O que me aconselhas? – Disse enquanto olhava para as garrafas coloridas.
Ao que parece, o cretino bonzão também achou piada à forma como eu falava e deu-me então uma bebida a que disse ser da sua própria autoria! «A especialidade do Marcus». Olhei um pouco desconfiada para o copo e ele riu-se de novo da minha figura e disse-me que era seguro de beber aquela coisa. E a verdade se diga, gostei daquilo, quase tanto quanto acabar a noite na sua cama, a seu lado, e descobrir que ele é um bom estudante da anatomia do corpo humano.
Solange Coimbra
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